História da Imigração Italiana
“Vai para o Brasil porque no Brasil, tudo é muito farto! Quando na verdade não era isso, a gente sabe que nesse país as terras foram distribuídas, a lei de terras vai vender terras, mas quem podia comprar terra?”
- Syrléa Marques

Syrléa marques
Syrléa Marques é professora, pesquisadora e historiadora da imigração italiana no Brasil. Ela lançou seu livro “Migração Italiana e memórias de mulheres” em 2024.
Seu livro conta a história do ponto de vista dos papéis das mulheres na imigração, com foco em famílias da Toscana que vieram para o Brasil.
A unificação da Itália marcou um momento de grandes desafios; o país enfrentava crises econômicas, sociais e mudanças culturais profundas. As famílias pobres do interior perderam as esperanças de melhoria de vida, Emílio Franzina conta em seu Livro “A grande Emigração” que a população não tinha o que comer, a não ser polenta. Muitos italianos buscavam novos caminhos em busca de uma vida melhor.
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Enquanto a Itália passava por um momento de crises econômicas, o Brasil se via buscando alternativas a fim de suprir a mão de obra africana, depois que a Lei Eusébio de Queiroz proibiu em 1850 o tráfico de escravizados. A solução encontrada pelo governo foi estimular a vinda dos europeus, que poderiam se fixar no país em troca da contribuição da mão de obra.
A escolha dos senhores de engenho de substituir a mão de obra africana pela europeia motivou-se pelo desejo de branquear o povo brasileiro, como menciona Syrléa, uma vez que acreditavam que o Brasil só iria se desenvolver e se tornar civilizado, se sua população embranquecer.
“Tudo indica que já no Império, se houve uma escolha pelos italianos, porque primeiro eles eram brancos: embranquecimento do povo brasileiro, tem uma lei para a entrada deles.
Segundo: católicos”
- Syrléa Marques
Syrléa comenta que quando o Brasil ainda era uma província, o governo financiava agenciadores de imigração, que ficavam fazendo propagandas para atrair moradores italianos ao Brasil com o intuito de trabalharem nas lavouras de café e ajudarem no desenvolvimento do país. Esses agentes recebiam comissões pelas vendas dos bilhetes e usavam cartazes de diferentes estilos para chamar atenção da população.
Essas propagandas vinham com promessas de uma “vida melhor”, na qual haveria distribuição de terras férteis, salário justo e emprego garantido para todos que iriam para o Brasil. Os camponeses italianos que estavam sofrendo com a fome e desemprego, viram, dessa, uma nova oportunidade de sustento para a família, embarcando, portanto, nessa jornada rumo a um país desconhecido.

Ao chegarem no Brasil, depois de uma intensa viagem de navios, lotados de pessoas, eram direcionados para núcleos coloniais localizados em regiões afastadas e pouco férteis, sem acesso a vias de transporte e infraestrutura que facilitassem o escoamento da produção ou a integração com o restante do país.
Nas fazendas de café, os contratos de trabalho previam que todos os membros da família, sejam homens, mulheres e crianças, participassem das atividades rurais. As condições de trabalho nas fazendas eram abomináveis, os italianos não podiam receber e nem enviar cartas, fora que eram cobrados os serviços como batizados, missas e assistência médica a preços altíssimos. A falta de escola para as crianças imigrantes também era um problema que eles enfrentavam.

“Quando eles vêm, eles têm que derrubar a floresta no lugar que a terra é horrível e que não vai dar em nada. Então assim, a decepção é enorme. Havia colônias financiadas pelo governo imperial, mas mesmo assim, a propriedade ou a vida dos colonos não era o que eles pensavam que iam encontrar”
- Syrléa Marques

Diante de toda essa situação, muitos imigrantes abandonaram as fazendas e migraram para a cidade de São Paulo, em busca de melhores oportunidades. Na capital paulista, eles encontraram espaço para trabalhar em fábricas, comércios e ofícios urbanos, já que a cidade vivia um período de crescimento industrial.
Entre 1888 e 1919, São Paulo se destacou como um dos principais destinos de imigrantes italianos, que representavam 44,7% do total de estrangeiros que chegavam ao estado, ocupando o terceiro lugar no fluxo geral de imigração.
São Paulo é a maior metrópole do Brasil e um dos maiores símbolos da diversidade e do trabalho. Com a expansão do café, a cidade passou a atrair imigrantes de várias partes do mundo, principalmente da Itália. Esses imigrantes chegaram em busca de oportunidade e, aos poucos, ajudaram a construir a cidade que conhecemos hoje.
No final do século XIX, a industrialização começou a ser fomentada na cidade, abrindo novas oportunidades de empregos para os imigrantes. Fábricas de tecido, calçados, alimentos e de metalurgia começaram a surgir.
No setor industrial, os europeus trouxeram habilidades técnicas que foram fundamentais para acelerar a industrialização. Alguns não apenas trabalhavam, mas empreendiam também, Francesco Matarazzo (1850 - 1937) é um exemplo de grande sucesso.
Francesco Matarazzo foi um empresário italiano, que construiu um dos maiores impérios industriais da América Latina. Matarazzo era dono de mais de duzentas fábricas no Brasil, abrindo oportunidades de emprego para grande parte da população e contribuindo para o capitalismo no Brasil.


“Alguns vieram com muita grana, se tornaram grandes empresários, por exemplo os Matarazzo, mas eles não são a maioria, são alguns que a gente identifica com o sobrenome. A maioria saiu com pouco recurso e com pouco recurso viveram.”
- Syrléa Marques

Depois da Segunda Guerra Mundial, a economia da Itália estava quebrada, resultando em uma alta taxa de desemprego e fome. Muitos italiano viviam com racionamento de alimentos e em condições precárias, enxergando assim, a emigração como única saída.
Stella Barbieri, 72 anos, nasceu na Itália, na região da Calábria. Esposa e mãe de dois filhos, Stella veio ao Brasil com seis anos de idade após sua família enfrentar dificuldades financeiras com o pós-guerra. Ela e sua família vieram para o bairro da Mooca.
“A Mooca foi onde todos os imigrantes encontraram mais apoio, pelo menos minha família, meus parentes. Tudo que eles puderam montar, eles montaram
na Mooca.”
- Stella Barbieri


A Mooca, localizada na zona leste da cidade, ficou popular no século XIX pelo avanço industrial com a criação dos trilhos de trêm e das fábricas, onde também recebeu grande parte dos imigrantes. Hoje em dia, o bairro carrega heranças culturais italianas tanto na arquitetura, como na gastronomia.
O Brás também foi um grande receptor de imigrantes italianos, principalmente na rua Caetano Pinto, que era conhecida por ser uma rua operária. Lá havia uma grande colônia de italianos que contribuíram para a formação cultural da cidade, tanto na gastronomia, como nas festas tradicionais. A Cantina Gigio existe há mais de cinquenta anos e é fruto de um comércio imigrante.
Os hábitos e costumes italianos estavam muito presentes nas colônias e influenciavam os moradores ao redor, eles eram conhecidos por animar o ambiente,com suas músicas, gestos, falas e comidas.
Antonio Santoro, neto de italianos, cresceu no meio dessa colônia do Brás, onde aprendeu a falar em italiano antes mesmo do falar português. Seus pais eram brasileiros, filhos de italianos que se fixaram no bairro do Brás e lá se estabeleceram. Antonio criou fortes laços com netos, filhos e descendentes, que intensificou ainda mais seus traços italianos.
A presença da Hospedaria dos Imigrantes no Brás, trouxe ao bairro, uma população grande parte estrangeira, que lá se fixaram e se desenvolveram financeiramente.

A HOSPEDARIA
Ao chegarem no Porto de Santos, os imigrantes eram levados de trem até a hospedaria, localizada no bairro do Brás, em São Paulo. Lá recebiam alimentação, abrigo, cuidados médicos e orientações de trabalho por alguns dias, antes de serem realocados para as fazendas ou outras regiões. O edifício contava com dormitórios coletivos, refeitórios, farmácia, laboratório, hospital, correios, lavanderia, e uma espécie de agência de emprego, onde os fazendeiros recrutavam trabalhadores.
Em 1993, após o tombamento do prédio, foi criado o Museu da imigração com o objetivo de preservar e divulgar a história dos imigrantes que vieram morar em São Paulo e ajudaram a formar a identidade paulista.
O museu conta com um enorme jardim que chama atenção para a arquitetura rústica, com uma variedade de espécies de árvores e plantas. Cafeteria, loja com souvenirs do tema do museu, auditório e espaço para retratos de épocas. Assim como mantém exposições permanentes e temporárias com objetos e documentos. Encontra-se também eventos de atividades culturais e educativas, a fim de celebrarem as diferenças culturais.
No acervo do Museu da Imigração, encontra-se uma coleção de entrevistas sobre histórias contadas pelos imigrantes e seus descendentes. Em uma delas, o italiano Grandi Piero Luigi conta sobre sua vinda para o Brasil e suas lembranças da infância. Piero Luigi era dono da Cantina do Piero il Vero, um restaurante localizado no jardins com um menu cheio de receitas trazidas por ele da Itália.



Piero contou na sua entrevista com o Museu sobre o cenário do navio que ele e sua família vieram, ele tinha vinte anos na época e não se lembrava de muita coisa. Eles desembarcaram no Rio de Janeiro e depois vieram para São Paulo, onde o pai dele conseguiu um emprego em uma fábrica.
Piero trabalhou em alguns restaurantes, antes de conseguir abrir sua própria cantina, um dos restaurantes foi do cozinheiro italiano Giovanni Bruno. Piero faleceu em 2012 e Giovanni Bruno, em 2014, ambos deixaram seus legados italianos na cidade de São Paulo.
As histórias de com diversas entrevistas dos imigrantes, intensifica a importância dos estrangeiros no desenvolvimento da nação brasileira, que é composta pela miscigenação de grupos étnicos, como africanos, indígenas, asiáticos e europeus.
A gastronomia italiana na cidade de São Paulo é resultado de um belo encontro cultural entre imigrantes e brasileiros, transformando tradições, ingredientes e modos de preparo ao longo das décadas.



