Cultura Italiana
“Existem muitas cantinas, muitos restaurantes que ainda mantêm uma tradição de como se fazia antigamente, como a própria culinária que vem, mas a maioria acabou modificando um pouquinho, fazendo a coisa um pouco diferente, adaptando ao gosto brasileiro. São Paulo principalmente é muito rico em restaurantes, é muito rico em cantiga, é muito rico em tudo que vc pode imaginar.”
- Stella Marcelli

Os chefs e restauradores italianos que se estabeleceram em São Paulo desempenham um papel fundamental na formação da identidade cultural e gastronômica paulistana. Eles não apenas trouxeram receitas e técnicas tradicionais da Itália, mas também adaptaram sabores, ingredientes e modos de preparo à realidade brasileira, criando uma cozinha ítalo-paulista única.
No livro Caderno de Receitas: Memórias Afetivas de Rosa Belluzzo e Betty Loeb, as histórias das receitas refletem a união das tradições transmitidas pelas famílias imigrantes no Brasil, evidenciando o valor cultural, afetivo e histórico.
“Cozinhar é uma forma de você dar amor ao próximo, aos convidados,
aos amigos, aos parentes”
- Rosa Belluzzo


Rosa belluzzo
Rosa Belluzzo é uma pesquisadora da história da alimentação e autora dos livros Machado de Assis: Relíquias culinárias; São Paulo, memória e sabor; Nem garfo nem faca: à mesa com os cronistas e viajantes; Os sabores da América: Cuba, Jamaica, Martinica, México; Mil e uma noites, mil e uma iguarias.
No livro Cadernos de receitas: Memórias afetivas, há diversas entrevistas sobre pessoas que carregam um vínculo emocional com receitas passadas através das gerações. Rosa Belluzzo e Betty Loeb Greiber resgatam a memória e as histórias de pratos que são transmitidos de mães para filhos e de avós para netos, mantendo viva as tradições que poderiam se perder com o tempo, como a história sobre a avó materna da Rosa, que fazia a mesma receita sempre que a família se reunia em sua fazenda no interior de São Paulo.
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Os cadernos de receitas herdados das mães, avós e bisavós são verdadeiros baús de lembranças que carregam pedaços da história de uma família. Nas folhas amareladas, quase se destacando do caderno, encontramos não só simples receitas, mas sim momentos que foram vividos no passado e registrados para que possam ser lembrados no futuro. A memória não é apenas um ato de lembrar de algo, mas também a forma como guardamos e interpretamos as experiências, emoções e história que vivemos.
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Syrléa Marques, historiadora da imigração italiana no Brasil e autora do livro Migração italiana e memória de mulheres, comenta que seu livro aborda histórias de família contada por mulheres através de objetos, fotos e cartas que eram guardadas dentro de caixas, denominadas por ela, como caixinhas de lembranças.



“Frequentemente, esses objetos vêm à tona e são mostrados como as fotografias, no almoço de domingo. Aquele almoço da macarronada que as crianças circulam pela casa, aquilo fica na memória. Então, esses objetos são fundamentais porque, ao serem mostrados, relembram histórias e, a partir dali, a identidade italiana é construída”
- Syrléa Marques
É nos almoços em família que essas memórias se manifestam com maior intensidade. As recordações compartilhadas à mesa fortalecem vínculos afetivos e relevam a trajetória de famílias que, mesmo décadas após a chegada dos imigrantes, continuam preservando e ressignificando suas origens italianas.
A influência italiana mantém-se presente na cidade, não somente na gastronomia, como também na arte, moda, arquitetura e nas festas representativas. Nos bairros da Bexiga, Mooca e Brás, onde teve uma maior concentração italiana, nos séculos XIX e XX, acontecem as tradicionais e conhecidas festas italianas que carregam tradições culturais tanto na comida, como nas danças e costumes pela devoção à religião.
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A famosa Festa San Gennaro acontece no bairro da Mooca entre setembro e outubro, e é repleta de tradições da culinária da Itália, assim como seu visual. As cores da bandeira, as músicas e apresentações fazem referência ao país.
O cardápio contém opções de lanches como sanduíches de pão com linguiça e vinagrete, de pernil ou mortadela; variados espetos e antepastos; polenta, além de uma grande quantidade de massas como espaguete, nhoque, lasanha, pizza e fogazza. Encontram-se também vários tipos de doces, como o canolli, sfogliatelle e pizzas doces.
O festival nas ruas San Gennaro e Lins, acontece aos sábados das 17h às 23h, e domingo das 17h às 22h, com entrada gratuita. Para frequentar a festa na Cantina San Gennaro, é preciso pagar um preço fixo. Os ingressos incluem jantar com espaguete, pizza folhada e bruschetta, além de show ao vivo e reserva de mesa.


No bairro do Brás, em 1918, os imigrantes italianos organizaram um evento religioso e social com a intenção de homenagear o padroeiro São Vito Mártir. No ano seguinte, fundaram a Associação Beneficente São Vito Mártir, que se tornou um dos maiores eventos religiosos e sociais dos italianos em São Paulo.
A festa de São Vito acontece na rua Polignano a Mare, nos sábados e domingos a partir dos dias 31 de maio à 13 de julho, às 19h. A entrada é paga e existem dois tipos de opções: praça de alimentação, que o público fica de pé; e a cantina, com lugares para sentar e três pratos inclusos.
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O festival conta com um cardápio tradicional italiano, com variadas massas de macarrão como espaguete, penne e ricchitella acompanhadas de molhos ao sugo ou alla puttanesca. Uma massa de batata assada com tomates conhecida como ficazza, ou uma massa de batata frita recheada com seu nome popular de ficazzella. O menu também conta com o prato italiano típico da região da Puglia, guimirella, que é um espeto de fígado de boi, sanduíche de mortadela e opções mais brasileiras de churrasco no pão. Além de cerimônias com apresentações de danças que celebram a cultura italiana.
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Ainda no bairro do Brás, na rua Caetano Pinto, acontece, desde o ano de 1900, todos os sábados e domingos, de 3 de maio a 1º de junho, a festa italiana de Casaluce com entrada gratuita. No começo da rua, há um enorme palco que conta com atrações musicais e danças italianas. Dentro da cantina Nossa Senhora de Casaluce, encontrasse uma enorme bandeira da Itália atrás da imagem de Nossa Senhora, assim como mesas espalhadas. O festival conta com as cores verde, branco e vermelho por toda tenda e posters de comida que ficam em cima das barracas.
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A célebre festa de Achiropita, no Bixiga, é bastante conhecida e frequentada não somente pelos moradores locais, mas por toda cidade. Homenageando a Nossa Senhora Achiropita, em que a devoção foi trazida pelos calabreses que se fixaram no bairro do Bixiga. Foi criada em 1908 com objetivo de arrecadar dinheiro para construir a igreja, e permanece até os dias atuais. O festival acontece nos finais de semana de agosto, nas ruas Treze de Maio, São Vicente e Doutor Luís Barreto. No cardápio encontram-se comidas típicas de várias regiões da Itália como macarrão, ficazza, fogazza, polenta, berinjela al forno, pizza, pimentão al forno e churrasco.
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Stella
Barbieri

“Acho que o Brasil acolheu muito essa parte, principalmente nas festas italianas que a gente conhece, que tem que ter. Acho que São Paulo principalmente acolheu muito e agradou muito a todos.”
A influência da imigração italiana na cidade de São Paulo vai muito além da culinária. Desde o final do século XIX, os imigrantes italianos deixaram marcas profundas na formação urbana, cultural e estética da capital paulista. Na arquitetura, a presença italiana pode ser vista em construções que se tornaram símbolos da cidade. Edifícios como o Martinelli, localizado no centro da cidade e o Edifício Itália, localizado na Avenida Ipiranga, são exemplos da valorização do estilo e da grandiosidade trazidas pelos imigrantes. Outro marco importante é o famoso Mercado Municipal de São Paulo, projetado pelo arquiteto italiano Felisberto Ranzini, que reflete a influência europeia nas formas e detalhes de sua estrutura, unindo funcionalidade e beleza.
Na moda, ao longo das décadas, o estilo europeu começou a se integrar ao modo de vestir brasileiro, influenciando a forma como a moda paulistana se desenvolveu. Grandes grifes italianas, como a Gucci, encontraram no Brasil um espaço para expandir sua reputação. A marca inaugurou sua primeira loja no Brasil em 1994, no Shopping Iguatemi, em São Paulo. Desde então, se consolidou como uma das marcas de luxo mais desejadas, com forte presença na cidade.
A Giorgio Armani, reconhecida mundialmente por seu estilo sofisticado e elegante, chegou ao Brasil em 1997, com abertura da primeira loja em São Paulo. A presença de grifes italianas em São Paulo, reflete a relação histórica e cultural entre a cidade e a Itália, construída desde a imigração italiana. Essa conexão não se manifesta apenas no consumo ou na estética dessas marcas, mas dialoga diretamente com a formação da identidade brasileira, resultado de um processo contínuo de encontros, trocas e miscigenação cultural.
Formada a partir da convivência entre povos indígenas, africanos e europeus, ela se construiu de maneira plural, reunindo diferentes tradições, costumes e formas de expressão. Essa diversidade se reflete nos modos de falar, de vestir, de celebrar e, principalmente, de viver em comunidade. Cada grupo que chegou ao Brasil contribuiu para moldar aspectos únicos da sociedade, deixando marcas que se estendem por várias gerações. Nesse contexto, a imigração italiana teve papel essencial, especialmente na cidade de São Paulo, onde sua influência se entrelaçou ao cotidiano e ajudou a definir parte importante da cultura paulistana.
A presença italiana em São Paulo ultrapassa o tempo e as gerações, permanecendo viva nos detalhes que compõem a cultura da cidade. Seja nas construções que marcam o cenário urbano, nas expressões da moda, nas tradições familiares ou nas festas típicas, a herança deixada pelos imigrantes se mistura à rotina paulistana, formando um patrimônio imaterial que continua a inspirar e transformar.






